nero d’avola

Eu sei, eu sei que eu exagero, principalmente, quando falo italiano, mas você tem que concordar que sorvete de menta com chocolate não faz sentido nenhum. Falta poética em algo que é massa gelada verde. Com o tempo, você passou a gostar mais do sorvete de coco fresco como eu. No verão, a vida tinha roteiro: fazíamos sorvete, tocávamos violão, abríamos o tarot e, depois das 23h, saíamos. as mochila nas costas, sprays – sempre vermelho, sempre preto –  e com nossos amigos pichadores subindo as ruas de santana, depois os prédios, depois as pontes. Eu adorava a vertigem, o silêncio. Você gostava das risadas. Na volta, era o banho gelado, era sexo, era fumar um, fumar vários, era abrir a lata de goiabada e ir ao último andar, ouvir os tubarões voadores do arrigo e esperar o sol.

No outro dia, quando você acordava, eu já tinha tomado um litro de café, rabiscado poemas, iniciado um conto e lia o aristóteles. Antes de cortar as cebolas, você cismava em tirar meu martinho da vitrola, metia a ella fitzgerald e reivindicava a igualdade de gênero musical, como se tivesse lugar de fala. A disputa tinha que acabar com benjamin e os anjos, que ambos gostávamos, mas era só depois de eu cantarolar aquela do barbeiro de sevilla e trapacear que você ia comprar a rúcula. Quando você voltava, você cismava que o que precisávamos era ouvir bob dylan na gaita.

Era 1h da manhã, barulhenta como sempre, a rua das palmeiras. você me ligava com dedos. “Tá aí? Tudo bem?” dizia receoso como se eu achasse que eu estava dormindo e não lendo a ética do espinosa estirada no chão da sala. Três minutos depois eu te explicava sobre as afecções a a política e como tudo aquilo significava que deleuze estava certo e, talvez, aristóteles errado, e “é por isso” eu dizia, “que estou triste”. Você era sábio demais para cair na minha provocação e falava da última música da norah jones, emendando com detalhes sobre césar vallejo e a extrema necessidade de comer uma pizza. Cinco minutos depois, estávamos lá no bar, primeiro tomando original, em outros tempos heineken – eu odiava as duas e você ficava bêbado rápido – não sem antes pedirmos uma dose de seleta e fumarmos três malboros cada, reclamando das mães. As mães não trazem a felicidade, concordávamos. “Os pais trazem a infelicidade”, você complementava. Eu só ouvia.

Seria o karaokê da consolação ou da liberdade? você justificava que passara o dia lendo o bolaño e que não conseguia decidir. Eu escolhia com base nos petiscos e nos banheiros com mais espaços livres para pichar. Nas portas, você sabia, meu objetivo sempre fora avisar as mulheres para fugir dos fãs de cortázar. você sempre ria quando eu contava e dizia “nunca o li”, embora nós dois soubéssemos que era mentira.

É quinta, não sabemos o que fazer, eu trabalho amanhã, você está cansado. Eu tenho saudade do mar e reclamo do sorrentino e você me conta dos últimos exemplares da revista cubana desconstruída que leu. Eu ouço com atenção, embora discorde do seu deleuzianismo. Meu marxismo não se dissolveu, eu sei. você quer ouvir aquelas melodiosas do jazz,  principalmente, chet baker, que um dia, eu lembro de ter amado. Eu queria insistir no fela kuti e no sun ra e dançar a la jagger, mas eu sei que não dá pra você. você lê o último poema seu, tão melodioso, tão buarquiano. Bonito, eu digo, bonito, eu repito. Eu queria poder escolher o modo avião. Eu ainda quero conhecer no oceano índico, sabe. A nero d’avola ainda é sua uva favorita. Eu não dormi, apesar de ter bebido meia garrafa a mais que você. Como sempre, você parece inofensivo quando dorme.

Um comentário sobre “nero d’avola

  1. “Eu cheguei a desenvolver uma verdadeira neurose por parede branca, não suporto mais, acho um desperdício (…)” (L.). Pixo porque amo gritar no silêncio da cidade de São Paulo, em Santana especialmente, há algo na inclinação do alto da Av. Cruzeiro do Sul quando olhando para o centro que me tira o horizonte. Talvez a sombra do Carandiru, a serpente dos trilhos do metrô ou ainda o calor do Terminal Tietê, ali o grito sai, mas descobrir seu trajeto, se de quem chega, de quem vai ou de quem volta, já é outra brisa. De qualquer maneira um ponto é certo, sorvete de menta com chocolate não faz sentido, desconfio do verde. Agora o tom da massa de pistache me devolve a fome. Um beijo amiga!

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