elaine

as ruas quentes nos apressam
falas, faces, cubos de gelos
tudo se derrama pelas mãos
cachorros, luzes, papéis 
um homem lavando as calçadas
pernas desnudas no meio fio
risos saltando no ar
a noite acontece

eu sento nas banquetas altas 
enquanto você desata 
a linha, a queixa, o muro
o rock que toca é antigo
e você sabe cantarolar
all the bricks, all the walls
maçãs deitam e rolam
nas catedrais

eu ouço, eu penso
na desorientação das estrelas
na sua face florida e contida
um vinho reservado
a contagem dos grãos
os poros expelindo tristezas
enquanto líquidos encontram os copos
dourados, cobres, negros
preenchem as cavidades da libido
a folga, a calma. as promessas
a líquida perícia do cervejeiro
deslizando mão-a-mão
boca-a-boca


você tomba a cabeça na mão
a vida cruel, os falsos amigos
os papers, sempre os papers
dos homens do panamá
e lista aqueles pontos
científicos, cegos
a pedra, a pedra, a pedra
e nenhuma assinatura semestral
de revistas de feng shui ou
novas arrozeiras de inox

não há lugares vazios
deveríamos festejar?
tubos de ensaios, tulipas
e maus dicionários
você calcula as ondas,
reconta os grãos, as conchas
seus pés enraizados na areia
você vê os dedos sumirem
com orgulho no pó
das antigas montanhas
mas e a espuma das ondas?
não é ela que estica a pele,
faz tremer e cantar pelo ar?
no calor, meu bem, calçamos as gatas
quebramos vitrais
e aprendemos a nadar
no verão, acontecemos.

esse poema faz parte do projeto verão. a leitura de elaine pode ser vista aqui.

Um comentário sobre “elaine

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s