4. isabela

Tudo é divino maravilhoso
Atenção para o é preciso estar atento e forte

I.
A viagem

Que coisas devo levar
nesta viagem em que partes?
as cartas de navegação só servem
a quem fica.
Com que mapas desvendar
um continente
que falta?
Estrangeira do teu corpo
tão comum
quantas línguas aprender
para calar-me?
Também quem fica
procura
um oriente.
Também
a quem fica
cabe uma paisagem nova
e a travessia insone do desconhecido
e a alegria difícil da descoberta.
O que levas do que fica,
o que, do que levas, retiro?

Ana Martins Marques

II.
Mantra – Rubel & Emicida

III.

Os companheiros do medo, René Magritte

IV.
O amor bate na aorta – Drica Moraes

V.
Um dia quente

Hoje fez um sol resplandescente,
minha vizinha lavou as camisolas no rio —
volta para casa com as peças dobradas num cesto,,
radiante, como se tivesse prolongado sua vida
por uma década. A limpeza a deixa feliz —
revela que é possível recomeçar,
os velhos erros não precisam detê-la.

Uma vizinha boa — respeitamos nossas
privacidades. Agora mesmo
está cantando sozinha, pendurando a roupa úmida no varal.

Pouco a pouco, dias como este
vão parecer normais. Mas o Inverno foi difícil:
noites precipitadas, auroras sombrias
de chuva teimosa e nevoenta — meses a fio,
e então a neve, como silêncio caindo do céu,
devastando árvores e jardins.

Hoje, tudo isso ficou para trás.
Os pássaros voltaram, trinam para as sementes.
A neve derreteu; as árvores frutíferas estão cobertas de folhagem macia.
Casais passeiam na campina fazendo as promessas de sempre.

Tomamos sol e o sol é curativo.
Ele não se furta. Paira sobre nós, imóvel,
feito um ator satisfeito com os aplausos.

Minha vizinha então se cala,
contempla a montanha, ouve os pássaros.

É tanta roupa, de onde saiu tudo isso?
E minha vizinha ainda está lá fora,
pendurando as peças no varal, como se o cesto nunca esvaziasse —

Ainda está lotado, nada se conclui,
embora o sol comece a baixar no céu;
lembre-se, ainda não é verão, só o começo da primavera;
o calor ainda não se instaurou, e o frio já regressa —

Ela pressente, como se a roupa congelasse nas suas mãos.
Ela olha para as mãos — mãos tão velhas. Não é o começo, é o fim.

Quanto aso adultos, já estão todos mortos.
Restaram as crianças, sozinhas, envelhecendo.

Louise Glück

VI.
“Não se trata apenas de carência de ternura, mas também de ser terno com o outro: estamos encerrados numa bondade mútua, somos reciprocamente maternais: voltamos à raiz de toda relação, lá, onde se juntam carência e desejo. O gesto terno diz: peça-me qualquer coisa que possa adormecer seu corpo, mas não esqueça que o desejo um pouco, ligeiramente, sem querer possuir nada imediatamente.”

Fragmentos de um discurso amoroso, Roland Barthes.

VII.

Bear’s time, 罗洋 Luo Yang, 2008


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