vê-lo verão

estender os olhos
fazê-lo com as mãos
ainda frias

saudade do mar, da bahia, do rio, olha a onda, olha o barquinho. a areia quente, a areia fria.
rememorar a veranista novata que fui, quando despejava a transparência dos seios.

poema que esteve na minha plaquete lançada no distante 2019.
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varanda


manhã alta,
café no fogo,
meus pés no chão frio.
vizinhas conversam nas janelas
será que chove,
é um dia bonito pra chover,
meu homi foi pescá lá no rio vermelho.
ensaboo as xícaras de ágata azul,
o canto do seo cosme vem chegando baixinho
até sua matraca tomar a sala

“óia as cocadinha, bonita, gostosa, macia, delícia”

ouço e faço conta,
já é quarta.
atravesso a sala quente listrada de sol,
me coloco na varanda
para espreitar o movimento.
meninas, meninos riem,
rodopiam o tabuleiro,
cirandando,
exclamam com vozezinhas prateadas
cocadinhas,
coquinho,
quebra-queixo.
seo cosme cerimonioso
tira o tabuleiro da cabeça
como um leve panamá,
o vento infla seu avental branco lá embaixo
e o meu vestido aqui em cima.
prendo o tecido entre minhas pernas,
me inclino no beiral,
a quentura do metal no cotovelo e
meu queixo repousa na palma da mão.
afasto os cabelos
para ver
bracinhos de todos os lados
de todas as cores
apontando
delícias,
macias,
gostosas,
bonitas
moedas tintilam e trocam mãos,
reconheço três dos meninos
são os mesmos que nos espiavam na rede
quando você veio de visita.
tão pequenos,
tão inocentes,
tão safos.

ainda é quarta,
o chaleira apita o café nas minhas costas
e no horizonte rubro mar
barcos já retornaram ao cais,
trazem peixes pra fritar
e odores de sal.

se você viesse hoje
lhe guardava uma cocada.

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