projeto verão

[atualização de abril/2022: já não é mais verão, mas o projeto continua. vou ainda postar todas as leituras e poemas dos que me escreveram durante dezembro e janeiro.]

durante o mês de dezembro, esse blog vai abrigar um projeto experimental de poesia, um projeto verão. farei diariamente uma consulta de tarot para amigues e postarei aqui materiais para uma leitura aberta. a ideia é, posteriormente, construir um poema de cada leitura.

sorte, água fresca e boa vida às consulentes .

Leituras realizadas

  1. elaine
  2. ana
  3. luana
  4. isabela
  5. yasmin
  6. andréa
  7. mariana
  8. bruno
  9. michelle
  10. luciana
  11. ana b.
  12. giovana
  13. eva
  14. lucas

Poemas

luciana

você enterrou o riso na grama
se escondeu da água, dos regadores,
das sementes.
manteve os pés nas plantas rentes ao chão
como também fizeram os pés de sua avó
a soleira sem sol confina
poderosos desejos.

a cama, a cômoda
fantasmas e tragédias sociais se repetem.
o kansas, a klan não podem ser o mundo.
ainda há a prenhice do novo.

se você esticar suas pernas na água
erguer os olhos do verde
vai poder afogar a casa
e mergulhar no amarelo-súbito.

Esse poema faz parte do projeto verão. A leitura de luciana se encontra aqui.

14. lucas

leia poesia e cantará o sol

I.
Cantiga

Nas ondas da praia
Nas ondas do mar
Quero ser feliz
Quero me afogar.

Nas ondas da praia
Quem vem me beijar?
Quero a estrela-d’alva
Rainha do mar.

Quero ser feliz
Nas ondas do mar
Quero esquecer tudo
Quero descansar.


Manuel Bandeira

II.
Caixeiro Viajante – Vinny Santa Fé

III.
Teia

Teia outra.

Aranha que se escondeu
ou se foi.

Entre dois fios de arame farpado,
no pasto,

a teia, esplendor de água,
desafia o touro amante:

renda de lúcidas pérolas
ateia-se ao sol levante.


Ruy Proença

IV.

“Belle Isle—Detroit,” from “The Americans,” 1955 – Robert Frank

V.
Love Love – Gilsons

VI.
Limiar

No corpo, onde tudo tem seu preço,
eu era um mendigo. Ajoelhado,

olhava, pela fechadura, não
o homem no banho, mas a chuva

a atravessar seu corpo: cordas de guitarra a
estalar sobre ombros em forma de globo.

Ele cantava, e é por isso
que eu lembro. Sua voz –

me preenchia até o osso
como um esqueleto. Até mesmo meu nome

se ajoelhava dentro de mim, pedindo
para ser poupado.

Ele cantava. É tudo que me lembro.
Pois no corpo, onde tudo tem seu preço,

eu estava vivo. Eu não sabia
que tinha motivo melhor.

Que certa manhã meu pai ia parar
– potro negro em tempestade –

& tentar escutar minha respiração contida
atrás da porta. Eu não sabia que o custo

de entrar numa canção – era perder
o caminho de volta.

Por isso entrei. Por isso perdi.
Perdi tudo com meus olhos

bem abertos.

Ocean Vuong

michelle

uma mulher sobe a rua
imune ao alaranjado da tarde
aos tufos de cidreira nas calçadas.

crianças e cães cruzam seu caminho
rumam para os painéis luminosos
que circundam rios, estradas
eles acreditam nas luzes
na combustão das matas
nos aromas doces, vapores quentes
que aquecerão a futura noite
desejos em néon, eles sonham.

ela é gueixa nos clows
a vida e a veste lisa
em black
novelos de lã
tem a memória dos tempos
das fiadeiras bibliotecárias
do peso das armas dos homens
das indústrias de metal
o sorriso é curto
e a coluna, alta das torres
pés nas pedras, ela segue.

o portão, a grade, a casa
o bunker
ela abre a porta para as xícaras vitorianas
a visão cinza
a camellia sinensis
líquida gótica
porque sim
porque se safa do brilho,
do acaso, as duplas
fogos de artifício.

à mesa,
sua boca escancara
todas os dentes
da metrópole.


Esse poema faz parte do projeto verão. A leitura de michelle se encontra aqui.

13. eva

e continuar aquela conversa
que não terminamos ontem

I.
sete chaves

Vamos tomar chá das cinco e eu te conto minha grande história passional, que guardei a sete chaves, e meu coração bate incompassado entre gaufrettes. Conta mais essa história, me aconselha como um marechal-do-ar fazendo alegoria. Estou tocada pelo fogo. Mais um roman à clé?
Eu nem respondo. Não sou dama nem mulher moderna.
Nem te conheço.
Então:
É daqui que tiro versos, desta festa – com arbítrio silencioso e origem que não confesso – como quem apaga seus pecados de seda, seus três monumentos pátrios, e passa o ponto e as luvas.

Ana Cristina César

II.
A Joaquim Cardozo

Com teus sapatos de borracha
seguramente
é que os seres pisam
no fundo das águas.

Encontraste algum dia
sobre a terra
o fundo do mar,
o tempo marinho e calmo?

Tuas refeições de peixe;
teus nomes
femininos: Mariana; teu verso
medido pelas ondas;

a cidade que não consegues
esquecer,
aflorada no mar: Recife,
arrecifes, marés, maresias;

e marinha ainda a arquitetura
que calculaste:
tantos sinais da marítima nostalgia
que te fez lento e longo.


João Cabral de Melo Neto

III.

Enfants, gare de marchandises, 13ème arrondissement, Paris – Sabine Weiss

IV.
Bisa Butler’s The Safety Patrol

V.
Pelo menos

Quero acordar cedo mais uma vez,
antes do sol. Antes até dos pássaros.
Quero jogar água fresca no rosto
e estar na minha mesa de trabalho
começar a subir das chaminés
das outras casas.
Quero ver as ondas quebrarem
nesta praia rochosa, não apenas ouvi-las
quebrar como ouvi a noite inteira, enquanto dormia.
Quero ver de novo os navios
que passam pelo Estreito, vindos
de todos os países do mundo –
cargueiros velhos e sujos que avançam lentamente
e os modernos navios mercantes, velozes,
pintados de todas as cores sob o sol,
cortando a água ao passar.
Quero ficar de olhos neles
e nos barquinhos que cruzam
a água entre navios
e a estação de controle junto ao farol.
Quero ver descerem um homem do navio
e trazerem outro a bordo.
Quero passar o dia vendo isso acontecer
e tirar minhas próprias conclusões.
Odeio parecer ganancioso – já tenho tanto
pelo que ser grato.
Mas quero acordar cedo mais um dia, pelo menos.
Ir para o meu canto com um café, e esperar.
Apenas esperar, para ver o que acontece.

Raymond Carver

VI.
Chungking Express – California Dreamin’

bruno

o amor começa no segundo ato
quando se atravessa a rua
para afanar o cão
e cozinhar tigelas
de favada
a desconhecidos

as distinções, as dominações,
o colorismo
arrebatam a pele
e as mãos entre o cinza
e a desordem dos prédios
gemem
com os ossos tenros
em ruas sem orientação

se você sujar os pés
na cozinha
contaminar-se
do pó
do coentro
pode aprender
o duplo cantar
na ponta espaldada
das favas

Esse poema faz parte do projeto verão. A leitura de bruno está aqui.

aquário

redoma de cristal
líquido espaço
mostra em espera

bojudo seio reverso
de finas paredes em azul-poeta
guarda mariscos
rochas corais
o pouso frio das mãos
digitais femininas
que buscam a temperatura tropical

os olhos cortinam
distantes
quanto a luz do sol lhe atravessa
em êxtase

peixes, cavalos marinhos
algas
em errância

em você,
a água do mar descansa

12. giovana

observar e absorver, com fé no amor, no bem

I.
Meu caminho – Flora Matos

II.
Questão de método

não sei mais um ballantines
ou ciências sociais?

Ledusha

III.
Segunda-feira

Respira
enquanto amaldiçoamos a sorte
e vagamos sem rumo
por avenidas superfaturadas.

Perdura
enquanto marcamos compromissos
com desconhecidos
e festejamos o que quer que seja
por questão de sobrevivência.

Imersa
no espaço não identificado
de um sopro,
entre uma e outra
resolução de emergência,
a insone estrela de fogo.

Onde não é nem nunca foi segunda-feira.

Bruno Brum

IV.
Liberdade – Drik Barbosa

V.

Vendedora de Flores, Djanira da Motta e Silva

VI.
Interior – Carne Doce

VII.
Engano

Soou o telefone na galeria de arte,
soou à meia-noite na sala quieta;
se houvesse gente dormindo, acordaria na certa,
mas aqui há somente insones profetas,
somente reis empalidecem de luar
e olham indiferentes o que há para olhar,
e a mulher do usuário, agitada na aparência,
fita justo essa coisa sonante na lareira,
mas não, não larga o seu leque,
como os outros aferrada à sua inércia.
Altivamente ausentes, em ricas vestes ou nus,
tratam o alarme noturno com indiferença,
na qual, juro, há mais negro humor
do que se da moldura saltasse o próprio mordomo-mor
(nada além do silêncio, aliás, lhe soa ao ouvido).
E o fato de que alguém na cidade, há longos instantes, se afana
segurando ingenuamente o receptor
tendo discado um número errado? Ele vive, logo se engana.

Wislawa Szymborska
(trad. Regina Przybycien)

mariana

o sucesso da receita vem
de ingredientes frescos
e da chuva no fim da tarde
aquela que faz
florescer a quaresmeira

a mistura dos líquidos precisa
da temperatura das mãos
frias sobre a colher
aquela que sabe
desenhar o infinito

ao fogo, a sentinela 
das formas 
suspiro quente em ponte leitosa
corpo & massa tramada
fermentação

quem guarda a receita?
a tarde mantém segredos
e resta a nós
a sorte e as facas 
daquelas que sabem 
nomear tipos de açúcar

Este poema faz parte do projeto verão. A leitura de mariana se encontra aqui.

11. ana b.

lugar de poesia é na calçada

I.
vai quebrando – heavy baile

II.
monster university

III.

A Cuca, Tarsila do Amaral

IV.

[…]
No necesito comprar, ni drograrme, ni contaminar el planeta usando walkmans a pilas, ni votar por un presidente dispuesto a reformar el Estado, ni distinguirme socialmente de los demás. No tengo ningún interés en el salario universal. La contemplación de las obras de arte acaba com las diferencias de clase y com as inseguridades personales. Además, los espectadores son parte de la obra en la misma proporción que los artistas. Al menos eso leí en una revista de sociología inglesa, y lo encuentro muy cierto y muy alentador. Es mucho más importante ser parte de una obra de arte que de una sociedad, porque las obras de arte están hechas de sueños y los sueños no tienen copyright.

Cecilia Pavón, Los sueños no tienen copyright

V.
Praça da República dos meus sonhos


A estátua de Álvares de Azevedo é devorada com paciência pela paisagem de morfina
a praça leva pontas aplicadas no centro de seu corpo e crianças brincado na tarde de esterco
Praça da República dos meus sonhos
onde tudo se faz febre e pombas crucificadas
onde beatificados vêm agitar as massas
onde García Lorca espera seu dentista
onde conquistamos a imensa desolação dos dias mais doces
os meninos tiveram seus testículos espetados pela multidão
lábios coagulam sem estardalhaço
os mictórios toma um lugar na luz
e os coqueiros se fixam onde o vento desarruma os cabelos
Delirium Tremens diante do Paraíso bundas glabras sexos de papel
anjos deitados nos canteiros cobertos de cal fumegante nas
privadas cérebros sulcados de acenos
os veterinários passam lentos lendo Dom Casmurro
há jovens pederastas embebidos em lilás
e putas com a noite passeando em torno de suas unhas
há uma gota de chuva na cabeleira abandonada
enquanto o sangue faz naufragar as corolas
Oh minhas visões lembranças de Rimbaud praça da República dos meus
Sonhos última sabedoria debruçada numa porta santa

Roberto Piva

VI.

museum of the moon

VI.
que estrago – letrux

andréa

é bonito ver as crianças correndo ao longo do gradil, os braços como asas de avião e as mãozinhas vão tocando cada aresta verde, barulhando tuc tuc tuc, os lábios frouxos brum brum brum e o riso columbino. os olhos agarram os limites dos portões, dos jardins, belos e soltos, e lá se vai o trinco, o susto, começa a nova expedição. filinha, gritinhos, shiiiiiiii e a certeza da bruxa no porão fica até o pulo da perereca em flagrante e a vida é gritos e corrida sem fôlego à calçada. ufa ufa ufa mãozinhas nas pernas, o sangue nas bochechas e a revelação dos segredos florestais que só tinham sonhado nos filmes.
toda noite é uma promessa que você enfileira em galerias de fotografias e banhos de luz colhidos e preservados com as garras sábias de quem conhece os horizontes. quando se tem belas pernas, ainda se pode esticar um braço ao gradil e ter o outro firme sobre o papel brilhante que tem a magia do cinema. com a máquina em punho, será possível captar os saltos das rãs se as fronteiras forem esquecidas. aí dizem que se ouve a voz da bruxa e o sangue esquenta.
os dados não mostram sua face sem que você anuncie sonoramente sua aposta. ninguém nega que a banca vence, mas, às vezes, a sorte te encontra inocente na encruzilhada. um pouco de dinheiro, um pouco de criança, um pouco de cachaça, tudo bem mexido no tacho de ferro e bastará girar os braços como asas para pousar nas imagens que a câmara escura sonhou.

se poema faz parte do projeto verão. A leitura de andréa está aqui.